quarta-feira, outubro 18, 2006

O Empreendimento Continua

Ora aqui vamos, mais um bocadinho. Vou postando as cenas ainda sem revisão e não pela ordem final.

Hei-de explicar melhor a coisa mas isto não é uma peça acabada, existe um monte de fragmentos e, pelo menos, duas versões de trabalho. Esta poderá ser, sob algumas interpretações a primeira cena do primeiro acto. Eu cá ainda não decidi...


Woyzeck barbeia Capitão
Casa do Capitão


CAPITÃO: Calma, Woyzeck, calma, uma coisa de cada vez. Estás a pôr-me tonto. Que hei-de eu fazer com os dez minutos que me vais poupar? Imagina só, Woyzeck, ainda tens uns bons trinta anos para viver, trinta anos! São 360 meses. E dias, horas, minutos. O que vais tu fazer com esse tempo todo? Não te apresses, Woyzeck.

WOYZECK: Sim, meu capitão.

CAPITÃO: Eu preocupo-me com o mundo quando penso na eternidade. Mantem-te ocupado, Woyzeck, mantêm-te ocupado. É para sempre, para sempre! Consegues compreender isto, não consegues? E mais uma vez não é eternidade mas apenas um momento fugaz, sim, um momento fugaz, Woyzeck. Sinto um arrepio quando penso que o mundo dá uma volta completa sobre si mesmo num só dia! Que perda de tempo! Onde irá isto tudo parar? Basta-me olhar a roda do moinho para ficar melancólico.

WOYZECK: Sim, meu capitão.

CAPITÃO: Woyzeck, pareces tão perturbado. Um homem decente não se parece tal, um homem decente de consciência tranquila... Conta-me coisas, Woyzeck! Que tempo vamos ter hoje?

WOYZECK: Mau, meu capitão, ventoso.

CAPITÃO: Pressinto-o. Está um reboliço lá fora! O vento tem o mesmo efeito em mim que tem o rato. Suponho que seja de Sul-Nordeste?

WOYZECK: Sim, meu capitão.

CAPITÃO: Hahahaha. Sul-Nordeste! Oh que és tão estúpido, horrivelmente estúpido. Woyzeck, tu és um homem decente mas não tens moralidade. Moralidade, entendes-me? É uma boa palavra. Tens uma criança sem a bênção da Igreja, como o nosso senhor prior disse, sem a bênção da Igreja. Não sou eu quem o diz.

WOYZECK: Meu capitão, Deus nosso senhor não terá em mais boas graças o pequeno bacorinho só porque não se terá dito Amem antes de ter sido feito. O Senhor disse 'sofram as criancinhas para que venham até mim'.

CAPITÃO: O que dizes? Que raio de estranha resposta é essa? Ele deixa-me deveras confuso com as suas respostas. Não quero dizer Ele, quero dizer tu, Woyzeck.

WOYZECK: Nós somos gente pobre, vê, meu capitão, é dinheiro. É dinheiro, quando não se tem nenhum. Não se pode colocar no mundo um tipo como eu apenas com a moralidade, um homem também é feito de carne e osso. Esses, como nós, excomungados deste mundo e do próximo. Só posso esperar quando chegarmos ao paraíso que sejamos colocados a ajudar com as trovoadas.

CAPITÃO: Woyzeck, não és detentor de virtude nenhuma. Não é um homem de virtude. Carne e osso? Quando estou à janela depois de uma chuvada e vejo meias brancas a saltitar pela rua, bolas Woyzeck, eu sinto o amor! Também eu sou carne e osso. Mas Woyzeck, a virtude, virtude! Como hei-de eu ocupar o meu tempo? Mas digo para comigo 'És um homem de virtude, um homem decente, um homem decente'.

WOYZECK: Sim, meu capitão, virtude. Não tenho esse problema. Nós, as pessoas comuns, não temos nenhuma virtude, apenas respeitamos as nossas naturezas. Mas se eu fosse um cavalheiro e tivesse um relógio e um longo sobretudo e fosse bem-falante aí sim, gostaria de ser um homem de virtude. Deve ser bom ter virtude, meu capitão, mas sou um homem pobre.

CAPITÃO: Bem, Woyzeck, tu és um homem decente, um homem decente. Mas pensas demasiado. Isso consome-te. Pareces tão perturbado. Esta nossa discussão deixou-me bastante aborrecido. Agora vai-te, segue calmamente rua abaixo.

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